Por Calil Machado e Carolina Mello
A informação de que a Liga dos Camponeses Pobres (LCP) é a organização criminosa alvo da operação GODOS, deflagrada pelo Ministério Público de Rondônia (MPRO) na manhã de quarta-feira (12), vem sendo repercutida na imprensa local. Ocorre que o próprio MPRO ressaltou que é errôneo concluir que todos os investigados sejam integrantes da LCP.
Ao G1, o procurador e coordenador do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (GAECO), Anderson Batista de Oliveira, afirmou: “as pessoas associam tudo o que acontece lá [Nova Mutum] à LCP, quando, na verdade, nem sempre tudo foi praticado pela LCP”.
Outro integrante do GAECO afirmou em sigilo a reportagem de Rondônia Plural que a Liga dos Camponeses Pobres não é o objeto central das investigações. “Investigamos fatos, fatos em tese criminosos. LCP não é fato e nem pessoa”, ressaltou.
“O que o comandante falou é por conta dele”, reagiu ao ser perguntado sobre as notórias falas do comandante da Polícia Militar de Rondônia, Régis Braguin, que viralizaram nas redes sociais classificando a LCP como um “grupo criminoso”.
Repercussão da Operação Godos
A Operação Godos foi deflagrada pelo Ministério Público de Rondônia (MPRO) com o objetivo de cumprir 50 mandados de prisão e mais 120 mandados de busca e apreensão, para desarticular uma organização criminosa que atuava em Nova Mutum Paraná, distrito de Porto Velho.
De acordo com informações do G1 Rondônia, um suspeito apontado como líder da LCP foi morto ao reagir à prisão. Baleada na perna, a esposa dele foi encaminhada de helicóptero ao Hospital João Paulo II, em Porto Velho.
Além das prisões e buscas, foram decretadas medidas como o sequestro de bens no valor total de R$ 2.052.919.545,16 (dois bilhões, cinquenta e dois milhões, novecentos e dezenove mil, quinhentos e quarenta e cinco reais e dezesseis centavos).
O valor corresponde a danos materiais, ambientais, climáticos, além das propriedades e valores relativos a investimentos feitos com recursos arrecadados da venda de áreas obtidas criminosamente.


Vereador “patriota” preso na operação Godos é apontado como integrante da LCP
O vereador do Partido Liberal (PL) pelo município de Nova Mamoré, Jair da 29, foi preso nesta quarta-feira (12) durante a operação GODOS. Na operação também foi preso o ex-vereador e subsecretário da agricultura José Carlos, o “Eletricista”, também filiado ao PL.
Apesar de integrarem o partido do ex-presidente Jair Bolsonaro, ambos vem sendo apontados como integrantes da Liga dos Camponeses Pobres (LCP), organização que já foi descrita como “maoísta”, corrente de pensamento que segue os princípios comunistas de Mao Tsé-Tung, líder da revolução chinesa de 1949.
Rondônia, o Massacre de Corumbiara e a criminalização da LCP
Criada em 1999, a Liga dos Camponeses Pobres (LCP) é um movimento social que surgiu em Rondônia em decorrência do “Massacre de Corumbiara”, como ficou conhecido um dos maiores casos de violência agrária que mancham a história de Rondônia com sangue camponês.
O caso, que terminou com a morte de 10 camponeses, entre eles uma criança de apenas 7 anos, levou Rondônia a responder por violações de direitos humanos na Comissão Interamericana dos Direitos Humanos (CIDH), da Organização dos Estados Americanos (OEA).
Em outubro de 2020, durante a maior crise sanitária da história da humanidade causada pela pandemia de Covid-19, a Liga dos Camponeses Pobres (LCP) se tornou inimiga oficial do Governo Marcos Rocha.
De acordo com a PM de Rondônia, integrantes da LCP seriam responsáveis pela morte de dois policiais – um tenente aposentado e um sargento – que teriam ido pescar na região do acampamento Tiago Campin dos Santos, em Nova Mutum.
Para Lenir Correia Coelho, advogada que representa os camponeses e uma das pessoas presas durante a Operação GODOS, a narrativa de que integrantes da LCP teriam assassinado os policiais é um pretexto usado para perseguir camponeses a serviço de latifundiários. “Por que um tenente iria pescar justo numa área de notório conflito agrário desde 2013?”, questionou a advogada em entrevista ao site Repórter Brasil.
Na ocasião, ela ainda destacou que é muito comum em Rondônia que policiais executem serviços particulares para ruralistas. Além disso, contou que – uma semana antes do tenente e o sargento morrerem – os camponeses da LCP presenciaram um confronto entre policiais e madeireiros, o que teria causado a morte dos agentes.
Em entrevista recente publicada no jornal A Nova Democracia, João Martins, sobrinho do latifundiário Antônio Martins dos Santos, o “Galo Velho”, admitiu que a família contrata policiais para proteger o patrimônio. “A gente utilizar do nosso recurso para proteger nosso patrimônio não é crime”, afirmou.
“Se tiver alguma coisa ilegal, é problema dos policiais na Corregedoria deles, né? Não é problema meu, eu tô protegendo o meu patrimônio. Se tem alguém errado é quem está fazendo bico”, destacou o sobrinho.
De acordo com investigações do Ministério Público Federal (MPF), Galo Velho seria líder de uma organização criminosa que lucrou mais R$ 330 milhões em grilagem de terras e fraudes no estado de Rondônia entre os anos de 2011 e 2015.

Em 8 de agosto de 2025, quando o Massacre de Corumbiara estava prestes a completar 30 anos, aconteceu uma operação do Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE) na área revolucionária Valdiro Chagas, em Machadinho d’Oeste, um dos acampamentos da LCP espalhados pelo estado de Rondônia. A operação terminou com o assassinato de um camponês.
Em vídeo publicado nas redes sociais, o comandante da PM-RO, Régis Braguin, anunciou que o BOPE “neutralizou” um suposto foragido da justiça. Na ocasião, Braguin classificou a LCP como “grupo criminoso” e afirmou que o suspeito morto era faccionado no Comando Vermelho.
Em nota, a Comissão Nacional das Ligas Camponesas e a Liga dos Camponeses Pobres de Rondônia e Amazônia Ocidental (LPC) negaram as acusações. O Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos (CEBRASPO) lançou em setembro um abaixo-assinado repudiando a escalada da criminalização da Liga dos Camponeses Pobres.
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