Existem encontros que acontecem no sigilo – e permanecem lá. Entre beijos, abraços e toques, podem existir expectativas não correspondidas e perguntas sem resposta. É nesse território comum das relações contemporâneas que o curta-metragem Sussurros na Água – dirigido pelo artista cênico e visual rondoniense Otavio de Sousa e produzido pela Auá Filmes – encontra sua principal matéria-prima.

O filme nasce de um desejo – um banho compartilhado entre dois homens – que se transforma em uma narrativa cinematográfica que mistura vídeoperformance, documentário e ficção. A partir de experimentações corporais diante da câmera, os corpos se encontram na cama e no chuveiro em um jogo de desejo, carinho e intimidade. 

Em contraste, aparecem cenas do diretor se despindo em um rio como se estivesse lembrando daquele momento e refletindo como se sente ao perceber que o parceiro não “mergulha” na profundidade do relacionamento. 

Em entrevista ao Rondônia Plural, Otavio fala sobre o processo criativo, as influências teóricas — como os conceitos de “amor líquido”, de Zygmunt Bauman, e “intimidade sintética”, do psicanalista André Alves — e os caminhos que o filme percorre ao tratar sobre relacionamentos contemporâneos.

Rondônia Plural – Sussurros na Água parte de uma relação marcada por desejo, proximidade e silêncio. Como surgiu a ideia inicial do filme e o que motivou você a transformar essa experiência em obra audiovisual? 

Otavio de Sousa: A proposta inicial do filme vem muito de como eu trabalho com experimentações corporais e criação de movimentos em um jogo de linguagem de performance para a câmera, que é basicamente a ideia de construir um espaço, lugar ou experimentar algum elemento com o corpo, e no jogo de câmera, onde um operador de câmera que assina a fotografia, joga em composição filmando, propondo, enquanto eu também proponho. A ideia inicial do trabalho foi experimentar a água como elemento de relação no corpo e aí, dentro dessa brincadeira com a água, havia questões como a chuva, por exemplo, e como essa chuva e essa água disparam outras chuvas e outras memórias relacionadas com a água. E aí dentre as várias memórias que tinham, uma delas era a memória que aparece na cena, que é o banho com uma pessoa com quem eu já me relacionei. A ideia era uma imagem solta, um banho com outra pessoa, que é uma coisa que eu gosto de fazer quando me relaciono, e aí a partir de experimentações com vários contextos com a água, essa imagem ganhou mais força e o fato de trabalhar depois com o Cristiam, que é o que deu a potência do trabalho acabar no lado documental e no processo também essa relação real entre imagens e performance ficcionadas mas também de certa forma explorando essa relação que existe no contexto real.

Rondônia Plural – O curta transita entre ficção, documentário e videoperformance. Por que você optou por esse formato híbrido e o que ele permite expressar que talvez um formato mais tradicional não permitiria? 

Otavio de Sousa: Como mencionei agora pouco, na verdade, essa pegada mais documentário ela acabou surgindo também embora eu tenha investigado ultimamente em alguns trabalhos esse jogo entre ficção e documentário. É muito próprio também da videoperformance. A performance em si compreende a ideia de um corpo presente, mas o vídeo também tem essa questão de ter um suporte que faz a mediação porque não é a performance real, a pessoa não está ali assistindo a performance, ela é mediada pelo vídeo, então há também o pensamento de como essa performance, esse corpo é capturado em audiovisual, então a videoperformance por si só já tem alguns elementos que eu posso trabalhar com documentário, mas aí a ideia acaba ficando entre como eu investigo algumas nuances que dão outras qualidades de documentário que não só a característica da linguagem. Então, nesse caso, o estilo entre ficção e documentário acabou sendo o processo que trouxe porque, inicialmente, não era o Cristiam que faria esse outro homem que toma banho comigo. Era um amigo que faria. E aí o fato de ter que convidar o Cristiam fez com que o projeto se tornasse um pouco mais documental. E aí com essa camada dessa relação real, dessas questões dessa construção de intimidade ou não fosse explorada acabou partindo do próprio processo. 

Rondônia Plural – A relação entre você e Cristiam Velozo atravessa o próprio processo criativo do filme. Como foi construir um trabalho artístico que dialoga tão diretamente com uma experiência pessoal? 

Otavio de Sousa: Essa característica foi uma das coisas mais interessantes de convidar o Cristiam, que não trabalha com nada artístico, mas a gente tem uma intimidade forte nesse contexto físico e a gente se conhece a algum tempo, a gente conversa um pouco, mas a gente vêm dialogando muito e o próprio filme fez com que a gente conversasse mais sobre esse tipo de relação que a gente têm que é uma relação física, mais sexual, e como ela é para mim e como ela é para ele. No filme acaba que eu pontuo mais como é para mim, as falas são minhas, a narrativa é minha, mas a gente conversou bastante sobre esse entendimento dele sobre a nossa relação e como muitas das perguntas, muitas não, poucas, mas essas perguntas que eu faço, das coisas que eu comento, é dessas conversas e do fato dele ser uma pessoa que não busca um compromisso. E eu não é que eu não busco um compromisso, mas eu busco conhecer alguém de maneira mais fluída, livre, e ele já tem essa coisa, que ele já impõe esse limite, então, acaba que depois de um tempo como eu falo em frases do filme acaba que fica pouco, vai ficando cansativo, repetitivo no mesmo lugar, e aí a evolução não é necessariamente um relacionamento romântico. Pode ser para uma amizade, pode ser uma relação sexual que tenha mais contato, mas a questão é que ela sempre acaba estagnada.

Rondônia Plural – O filme parece explorar a tensão entre o encontro sexual e a ausência de intimidade fora dele. Em que medida essa reflexão dialoga com as formas contemporâneas de se relacionar? 

Otavio de Sousa: Eu tenho investigado no meu trabalho para o doutorado essas questões das relações contemporâneas, tanto do conceito do Amor Líquido, do Bauman, quanto agora como eu tenho tido contato com a ideia de intimidade sintética, do [psicanalista] André Alves, que eu escutei em um podcast [Bom Dia, Obvious] referente a psicologia e eu tenho trabalhado muito com isso porque, dentro do contexto artístico, eu sou uma pessoa muito aberta, que preza e busca essa ideia do corpo aberto, de conhecer as pessoas do contato, isso não só no aspecto de relacionamento amoroso, também no relacionamento, nos contextos de amizade e tudo mais. Então foi interessante nesse sentido e, o próprio ato de fazer o filme, já criou um outro tipo de intimidade com o Cristiam, por exemplo, que a gente não tinha de certa forma. A gente acabou conversando sobre outras coisas e vivenciou experiências em um outro lugar que não era só a experiência sexual e o diálogo está muito explícito, tanto nessas reflexões imagéticas, poéticas, entre essas interações de solidão e momentos de felicidade, e como a relação fica muito nesse lugar, mas fazendo o filme, por exemplo, a gente capta momentos ali onde parece que a gente não se preocupa tanto com essa ideia de não se jogar ou não se aproximar das pessoas, seja por medo ou por qualquer coisa, como chatear a outra pessoa. Enfim, mas o próprio processo tem um pouco dessas questões, e o filme dialoga nessa ideia dos questionamentos também e dessas questões de como contemporaneamente as relações vão ficando mais fragilizadas e aí eu brinco na ideia da água, com essa ideia de raso, superficial, de não mergulhar, de apenas molhar os pés na água, essa imagens vão sendo criadas. 

Rondônia Plural – A água aparece como elemento central e simbólico na narrativa. Como essa metáfora foi construída visualmente e conceitualmente ao longo do curta? 

Otavio de Sousa: A questão da água surge, inicialmente, muito nessa questão de purificação, nessa questão de uma água que, por exemplo, uma gota de água que tem aqui, que cai aqui em uma chuva, pode ter circulado o mundo, então, ela tem uma história, e nessa ideia de purificar, de alívio, eu adoro tomar banho de chuva desde criança, então, tem também esse contexto afetivo de como tomando banho de chuva eu relaxo, esqueço todo o resto e vivencio aquele momento. Aí acaba que a água vai aparecendo nessa jogada ali no rio, no rio raso, no chuveiro, e aí eu falo da chuva, de como eu gosto do chuveiro, e a própria relação com a água, de ser mais calma, de entrar aos poucos, depois de movimentar muito a água ou de olhar para a água, então, eu vou construindo várias imagens de relação com a água que acaba sendo também meio que uma metáfora da própria relação dos dois corpos na cama ou no chuveiro, então, eu vou fazendo uma brincadeira com essa jogada, como se eu tivesse me relacionando com a água em uma ideia de liberdade, de felicidade, de afeto, em contrapartida com meu corpo se relacionando com o corpo do Cristiam na cama ou no chuveiro.

Rondônia Plural – O release menciona referências como a ideia de “amor líquido”, de Zygmunt Bauman, e a noção de “intimidade sintética”, do psicanalista André Alves. Como essas reflexões influenciaram a concepção do filme? 

Otavio de Sousa: Esses dois conceitos têm muito a ver com a ideia de que as relações contemporâneas são muito “líquidas”, que elas mudam muito fácil, são muito frágeis, e aí o Bauman fala muito disso, de que essa intimidade, ele fala para a sociedade líquida também, que essa ideia de que tudo é muito passageiro e muda muito rápido, e intimidade sintética tem a ver com essa ideia de mimetizar também com essa ideia de uma intimidade meio performada, onde eu meio que tento construir ela em um lugar de segurança ou de aparência, ou que não é real, que é ali, por exemplo, as intimidades nas redes sociais, nas conversas de aplicativo, por exemplo, que é uma coisa sintética, segura e frágil, também que são mais ligados a ideia de conexão que as pessoas confundem com a ideia de relação, onde há um lugar de troca. 

Rondônia Plural – O filme aborda temas como solidão, desejo e expectativa dentro de uma relação que se prolonga no tempo sem se transformar. O que você espera que o público sinta ou questione ao assistir ao curta? 

Otavio de Sousa: Eu geralmente não costumo criar essa ideia de que o público perceba ou sinta uma coisa específica. Eu tento muito nos trabalhos e no processo que seja justamente processos que me atravessam, para que me atravessando, eles criem potência, o que pode afetar o público de diversas formas, mas assim, dentro dessa pretensão, eu imagino que o filme está com uma imagem que dá para as pessoas perceberem que é um filme muito bonito, que é muito particular, muito simples em um lugar de honestidade. Não tem nenhuma pretensão. O contexto sexual, por exemplo, não é levado a uma questão sexual ou erótica. Acontece, muito mais, em um lugar de delicadeza. E a ideia da solidão perpassa muito esse lugar em como nas relações contemporâneas algumas pessoas, muitas vezes, elas estão em uma relação que, aparentemente, ela é gostosa, tem essas nuances de desejo, mas ao mesmo tempo, as pessoas se sentem sozinhas porque essas relações são momentâneas e não muito duradouras, então, eu espero que o público sinta ou questione mais esse lugar de entender, ainda mais no contexto de homoafetividade, que as relações homoafetivas também tem essas nuances de solidão, desejo e expectativa. 

Rondônia Plural – Depois de realizar Sussurros na Água, que reflexões ou transformações pessoais ficaram para você enquanto diretor e também como alguém implicado na própria narrativa? 

Otavio de Sousa: Eu já venho explorando essa ideia de documentário e ficção, mas nesse  filme, ele é muito mais documental do que ficcional, diferente, por exemplo, de outro filme que eu fiz, o Ecos de Aú, que era um meio termo exato entre documentário e ficção. Esse eu acho que tem uma pegada mais documental, mesmo que tenha as questões da videoperformance, é uma videoperformance do momento real da dança, mas o contexto está mais ligado a ideia documental dessa relação e, de certa forma, comunicar de maneira poética os aspectos dessa relação com o Cristiam, então, o que fica muito para mim, pessoal, é essas possibilidades de criar lugares para dialogar tanto na vida quanto na arte. Além disso, o próprio filme fez, de certa forma, que a minha relação e do Cristiam tivesse um pouco mais de intimidade, não que tenha evoluído para algo romântico, mas na ideia de construir um outro lugar, que não era só o sexual, a gente partilha a criação desse filme de certa forma, então, foi interessante ver isso e como experimentar outras linguagens dentro da mesma área, no caso do audiovisual, como experimentando várias linguagens de como eu consigo chegar a processos e materiais muito interessantes. 

Rondônia Plural – Tem algo que você acha importante destacar? 

Otavio de Sousa: A ideia é que o filme seja mesmo um trabalho delicado e honesto de partilha dessa relação, a ideia de partilhar vivências do contexto LGBTQIAPN+ principalmente no contexto de Rondônia, tendo em vista que a gente tem uma sociedade muito conservadora. Acho que é interessante poder partilhar esse tipo de vivências homoafetivas de uma maneira delicada, de uma maneira mais natural, poética e romântica, de certa forma também porque cabe nesse lugar de um romantismo, na ideia de pensar a afetividade, pensar intimidade, nas relações e que mesmo sendo esse trabalho mais sobre as relações homoafetivas, ela também se expande para qualquer tipo de relação na sociedade, seja hetero, homo ou pansexual, enfim, eu acho que tem essas questões de você perceber possibilidades de outras relações que existem.

Sussurros na Água é um projeto contemplado no EDITAL Nº 01/2024/SEJUCEL – EDITAL LPG – AUDIOVISUAL – BOLSAS CULTURAIS PARA ARTES EM VÍDEO.

Ficha Técnica:

Direção: Otavio de Sousa

Produção: Auá Filmes 

Produção Executiva: Stefany Araujo

Assistente de Produção Executiva: Keven Fongaro

Elenco: Cristiam Velozo e Otavio de Sousa.

Direção de fotografia: Lucas Costa 

Assistente de fotografia: Ana Vitória de Araújo Silva | Samuel Malaquias Carvalho

Colorização: Samuel Malaquias Carvalho

Assistência de arte: Gizzamara Mancurti

Montagem e Edição: Otavio de Sousa

Trilha Sonora Original: Lucas Augusto da Silva

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