Segundo nova pesquisa Datafolha, divulgada no último sábado (20), a disputa pela Presidência da República continua polarizada entre as candidaturas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do senador Flávio Bolsonaro. Na simulação de segundo turno, o atual mandatário mantém 47% das intenções de voto contra 43% do parlamentar, repetindo os exatos patamares registrados em maio e não tão distante das margens de erro.
A estabilidade dos números reflete um eleitorado ainda cristalizado em suas posições. “O cenário se assemelha, cada vez mais, a um ‘terceiro turno’ das eleições de 2022: um tira-teima entre os sobrenomes Bolsonaro e Lula da Silva”, diz Beto Vasques, analista político e coordenador do Laboratório de Opinião Pública e Mídias Digitais da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP).
Para ele, o levantamento confirma que o cenário atual se mantém favorável ao presidente por uma margem estreita. “O Datafolha indica estabilidade no cenário eleitoral, com a manutenção de uma margem pequena, mas consistente, a favor do presidente Lula desde o episódio Dark Horse”, diz Vasques.
O teto de rejeição e o impacto de escândalos recentes aparecem como os principais nós estratégicos para a oposição. Embora Flávio Bolsonaro demonstre competitividade e uma base sólida na direita, o desgaste de sua imagem gera questionamentos sobre seu potencial de crescimento na reta final. Os resultados confirmam o impacto do caso Dark Horse na campanha eleitoral, avalia Hilton Fernandes, cientista político e professor do laboratório da FESPSP.
“O patamar de sua rejeição, fixado em 48%, aliado à divulgação dos áudios com Daniel Vorcaro (ligado ao escândalo do Banco Master), lança dúvidas sobre sua capacidade de vencer a eleição, ainda que ele se mantenha competitivo contra Lula. A evolução das intenções espontâneas também aponta uma interrupção da tendência de crescimento de Flávio”, enfatiza.
O governo federal também encontra barreiras para alargar sua vantagem, opina Aldo Fornazieri, cientista político e coordenador de pós-graduação na FESPSP. “A pesquisa Datafolha de 20 de junho mostra a dificuldade da candidatura de Lula de potencializar os ganhos da agenda positiva do governo e de conter as perdas da candidatura de Flávio Bolsonaro na exploração dos episódios negativos de sua ligação com Daniel Vorcaro. Isto se evidencia no fato de que, nas simulações de segundo turno, Lula e Flávio repetem os números de maio, com o presidente aparecendo com 47% e o oposicionista com 43%”, destaca.
Fornazieri ressalta que a dianteira do petista flutua de acordo com o instituto, sendo o Datafolha o termômetro mais apertado em comparação com as rodadas metodológicas da semana anterior. “A diferença no Datafolha, no entanto, é significativamente menor do que as que aparecem na pesquisa Nexus/BTG, que traz uma vantagem de 6 pontos a favor de Lula (49% a 43%), e na da CNT/MDA, cuja dianteira chega a 12,5 pontos (49,3% a 36,8%)”, pondera o coordenador.
Os analistas convergem no entendimento de que o atual patamar de equilíbrio deve ditar o ritmo da pré-campanha, dependendo diretamente da condução de novas crises factuais.
Para Vasques, a dinâmica volátil de denúncias exige cautela analítica de ambos os lados da disputa. “Os resultados confirmam que a disputa pela Presidência está aberta e tende a ser altamente sensível à agenda factual, deixando as variações sujeitas a alterações até o dia da eleição. Esse é o caso do episódio Jaques Wagner”, destaca.
Diante das pressões conjunturais, os especialistas apontam que leituras definitivas antes do horário eleitoral gratuito podem induzir a erros de planejamento. “A grande questão é se o filho de Bolsonaro terá chances de vencer Lula na etapa final, pois isso pode determinar quem continuará ao lado de Flávio até a eleição. Neste momento, as duas campanhas precisam compreender melhor os efeitos das notícias negativas e das ações do governo no comportamento do eleitor”, conclui Fernandes.
Os analistas trabalham com a expectativa de que a tendência das urnas ainda demore um tempo para se mostrar mais claramente. É provável que a situação de empate técnico se mantenha durante o período que antecede o início propriamente dito da campanha, a não ser que surjam fatos novos capazes de provocar prejuízos significativos a uma ou outra candidatura. “Somente no período de 20 a 30 dias após o início oficial das campanhas se poderá vislumbrar uma tendência mais consolidada da disputa”, avalia Fornazieri.
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