A Associação Cultural Rio Madeira (ACRM) intensificou a mobilização em defesa da preservação da Praça João Nicoletti ao divulgar um manifesto contra a proposta da Prefeitura de Porto Velho de renomear o espaço como “Praça da Justiça” durante as obras de revitalização conduzidas pela Empresa de Desenvolvimento Urbano (EMDUR).

No documento, divulgado na segunda-feira (6), a entidade afirma que a alteração da denominação representa um “grave dano” ao patrimônio histórico-cultural da cidade e acusa a administração municipal de promover o apagamento de uma das principais referências da memória urbana da capital.

Segundo a ACRM, a praça integra um conjunto arquitetônico e histórico de grande relevância para Porto Velho, formado pela Catedral Sagrado Coração de Jesus, pelo antigo Palácio da Prefeitura, pela Loja Maçônica União e Perseverança, pelo Colégio Barão do Solimões e pelo antigo prédio do Colégio Dom Bosco. Para a entidade, esse conjunto constitui um dos marcos da formação da cidade e não pode ser descaracterizado.

O manifesto sustenta que Padre João Nicoletti, sacerdote italiano que chegou a Porto Velho em 1927, foi um dos principais responsáveis pela construção da Catedral, do Colégio Dom Bosco, do Colégio Maria Auxiliadora e do antigo Hospital São José. Em reconhecimento à sua contribuição para a história local, seu nome foi atribuído à praça, inaugurada em 1966.

A associação considera que substituir essa homenagem pela denominação “Praça da Justiça” rompe a unidade histórica do espaço e desvaloriza a identidade construída ao longo de décadas. No texto, a entidade afirma que a medida teria sido adotada sem a devida participação da comunidade e critica a condução do processo pela administração municipal.

Outro ponto contestado é a possibilidade de instalação de um memorial dedicado ao Padre João Nicoletti nas proximidades da Catedral como forma de compensação pela mudança do nome da praça. Para a ACRM, a iniciativa não substitui a preservação da denominação histórica nem resolve o problema apontado pela entidade.

Apesar das críticas, o manifesto esclarece que a associação não se opõe à realização de uma homenagem ao Poder Judiciário. O que a entidade rejeita é que essa homenagem implique a substituição do nome original da praça, considerado um patrimônio simbólico da população porto-velhense.

No documento, a ACRM informa que buscou diálogo com a Prefeitura e com a EMDUR antes de recorrer ao manifesto público, mas afirma que as negociações não produziram resultados satisfatórios. Diante desse cenário, a entidade anuncia que pretende ampliar a mobilização social e utilizar todos os instrumentos institucionais disponíveis para tentar impedir a alteração da nomenclatura.

Como parte dessa estratégia, a associação faz um apelo para que diversas instituições se manifestem sobre o tema, entre elas o Ministério Público, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), o Conselho Regional de Engenharia e Agronomia (CREA), a Universidade Federal de Rondônia (UNIR), o Arcebispado de Porto Velho, academias de letras, parlamentares e a sociedade civil.

Para a entidade, a discussão ultrapassa a mudança de um nome e diz respeito à preservação da memória coletiva da cidade. “Destruir referências memoriais nunca foi um bom caminho”, afirma o manifesto, que conclui defendendo que o poder público tem o dever de proteger o patrimônio histórico e cultural de Porto Velho.

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Leia o manifesto na íntegra:

MANIFESTO DA ASSOCIAÇÃO CULTURAL RIO MADEIRA – ACRM

“O exercício da cidadania é a herança mais poderosa que podemos deixar para as futuras gerações”

A Associação Cultural Rio Madeira – ACRM, entidade da sociedade civil organizada de Rondônia, sediada em Porto Velho-RO., com o propósito de denunciar o que considera grave lesão ao patrimônio histórico-cultural da cidade, vem à público manifestar-se contra ato do Município, na pessoa do Prefeito da Capital, pelo fato de ter autorizado a revitalização do espaço da Praça João Nicoletti, ao fim de cujo processo passará a ser chamada de Praça da Justiça, ato que sem dúvida resultará no apagamento de importante marco da memória da cidade, o que faz nos seguintes termos:

Toda e qualquer ação praticada contra a história construída pelo povo será sempre uma ação covarde a espelhar todo tipo de descompromisso, sobretudo e particularmente quando desrespeita valores que estão associados à sua identidade.

Neste sentido, a ação que vem sendo velozmente executada pela EMDUR por ordem do Prefeito da Capital, no sentido de revitalizar o espaço da Praça João Nicoletti, para ao final de tal revitalização passar a se chamar Praça da Justiça, forma que encontrou para querer agradar outro Poder, no caso o Judiciário, constitui-se em gravíssimo ato de desrespeito à História do povo de Rondônia, que tinha e tem a Praça João Nicoletti como um dos elos de ligação à sua história mais remota.

Ao agir contra a nossa história como está agindo, o Prefeito de Porto Velho, revela insensibilidade, projeta a faceta do colonizador ingênuo e descompromissado com os valores culturais do Município, isto porque escolheu para agredir, sem ouvir a comunidade, um espaço extremamente caro à população de Porto Velho, local por ela desfrutado desde 1966, ano em que foi inaugurada.

O fato do Executivo Municipal, na pessoa do Prefeito, querer compensar essa troca (de Praça João Nicoletti para Praça da Justiça) construindo um memorial ao Pe. João Nicoletti dentro das cercanias da Catedral, nada justifica – ao contrário -, demonstra na verdade estúpida ignorância histórica, além de inegável falta de compromisso com a identidade do nosso povo.

A árdua luta que vem travando contra este triste episódio (trocar o nome da Praça João Nicoletti para Praça da Justiça), tal como noticiado pelo Presidente da EMDUR, obrigou a ACRM a lançar mão do presente MANIFESTO, meio que encontrou para levar ao conhecimento da população as intenções do Prefeito da Capital em relação ao dito espaço, meio que também serve, por óbvio, para clamar pelo apoio da população de Porto Velho, de sorte a não deixar que isto aconteça, e é bastante simples entender a razão.

A Praça João Nicoletti e seu entorno formam um conjunto histórico único, que inclui a Catedral Sagrado Coração de Jesus, o antigo Palácio da Prefeitura, a Loja Maçônica União e Perseverança, o Colégio Barão do Solimões e o pioneiro prédio do Colégio Dom Bosco.

No contexto desse apanhado arquitetônico, tem destaque o trabalho gigantesco realizado pelo Pe. João Nicoletti, o qual se dedicou, auxiliado pelo Pe. Peixoto, na construção da Catedral de Porto Velho, na edificação do prédio do Colégio Dom Bosco, sem esquecer que é fruto também da obra do mencionado padre a construção do Colégio Maria Auxiliadora e do prédio do antigo Hospital São José, única unidade hospitalar que existiu na cidade de Porto Velho, até os primeiros anos de 1970.

A vida do Pe. João Nicoletti, esteve toda ela voltada ao primado da fé, à educação da juventude de Porto Velho, e ao trabalho de consolação das pessoas enfermas, e foi para homenagear a grandeza de sua obra, reconhecendo assim o valor de seu trabalho, que a ele foi dado o nome de uma praça, a Praça João Nicoletti, e é exatamente o nome desse valoroso Sacerdote (pasmem!) que o Poder Público Municipal, na pessoa do Senhor Prefeito, quer agora apagar, já que ao final da revitalização que nela está sendo executada pela EMDUR, conforme tem informado o Presidente desse órgão, ela passará a ser denominada de Praça da Justiça.

Ora, descaracterizar esse valioso conjunto arquitetônico para supostamente querer agradar outro Poder, no caso o Judiciário, quebra a unidade do local e agride a identidade urbana dos beradeiros de Porto Velho, os quais por conta disso vivem constantemente sufocados em razão de atos dessa monta, insensata e brutal forma de apagamento da história. A harmonia urbana exige que os espaços sejam tratados como uma obra de arte viva, e esta é a percepção dos dirigentes da ACRM em relação ao referido espaço.

Como temos feito em outras ocasiões, reafirmamos também aqui que não fazemos nenhuma objeção a que o Poder Municipal preste homenagem ao Poder Judiciário, tal como parece ser a intenção.

Queremos que a população fique bem ciente de que a Associação Cultural Rio Madeira – ACRM está em luta é contra a troca do nome da praça, e quer pedir que a comunidade de Porto Velho lhe apoie nessa árdua empreitada para que possa continuar lutando, apoio sem dúvida imprescindível neste momento, sem o qual sua luta tenderá a ficar ainda mais difícil.

Para que não se rotule a ACRM de irresponsável, aproveita-se a presente via para também esclarecer a população, e ao povo em geral, que esta Associação tem empreendido todos os esforços no sentido de buscar o diálogo com as autoridades para tratar desse assunto, porém as reações nesse particular não têm sido as melhores, levando-se a crer que o gestor público parece ter esquecido de que para mudar o nome da praça está obrigado a compartilhar a sua decisão com a comunidade. Destruir referências memoriais nunca foi um bom caminho, quer seja em Porto Velho, quer seja em qualquer parte do mundo.

Esperamos assim que o bom senso prevaleça, mas caso isso não seja possível, a ACRM também está disposta a lançar mão de todas as ferramentas institucionais e, ainda da mobilização social para garantir a proteção de nossa identidade cultural contra atitudes que objetivem querer o apagamento da nossa memória histórica, até porque não se pode transigir com a legalidade.

Pela relevância da questão, a ACRM conclama o Ministério Público, os Vereadores e as Vereadoras, o IPHAN, a OAB, o CREA, o Arcebispado, a UNIR, as Academias de Letras, os Deputados Estaduais, Federais, os Senadores, e a população em geral, para que comunguem da mesma preocupação, para evitar que a tal troca venha a se materializar, inquietação necessária e sem a qual o patrimônio histórico, paisagístico e cultural de Porto Velho ver-se-á a mercê de atos insensíveis, a exemplo desse gravíssimo dano aqui denunciado, ato este que infelizmente vem sendo protagonizado, por ordem e graça de quem deveria proteger o bem público.

Porto Velho (RO), 06 de julho de 2026.

Antônio Serpa do Amaral Filho (Presidente)
Celso Luiz Mendes – membro
Edson Mugrabe Oliveira – membro
Ênio Oliveira Bento de Melo – membro
Edilson Lobo do Nascimento – membro
Enoch de Siqueira Cavalcante Neto – membro
Gabriel da Silva Santos – membro
Heitor Facundo Almeida – membro
José Maria Ortiz de Carvalho – membro
Jorge Américo Azevedo – membro
Lúcio Albuquerque – membro
Myrian Queiroz – membro
Rita Clara Vieira – membro (entre muitos outros membros que dela fazem parte).

Associação Cultural Rio Madeira – ACRM – CNPJ nº 09. 421.585/0001-32

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