Um curta-metragem produzido em Ji-Paraná ganhará as telas de um dos festivais mais reconhecidos na Europa dedicados ao cinema LGBTQIA+. “Sussurros na Água”, dirigido por Otavio de Sousa e produzido pela Auá Filmes, terá sua estreia mundial no dia 9 de outubro, durante o 19º Lust*streifen Film Festival Basel, em Basel, na Suíça.
Com 11 minutos de duração, o documentário experimental foi selecionado para a mostra competitiva “Intimacy Competition” e é o único filme brasileiro presente no festival. Na categoria, a produção rondoniense também é a única representante da América Latina. Ao todo, a programação competitiva reúne curtas de diferentes países, entre eles Índia, Rússia, França, Espanha, Alemanha, Bélgica, Austrália, Coreia do Sul, Nova Zelândia, Reino Unido e Estados Unidos.
Realizado entre os dias 8 e 11 de outubro, o festival chega à 19ª edição com o tema “Bodies in Solidarity” — “Corpos em Solidariedade”. A programação reúne filmes, oficinas, debates e outras atividades voltadas à diversidade e à reflexão sobre gênero, sexualidade e corpo. A proposta do evento é ampliar a visibilidade de narrativas LGBTQIA+ e criar espaço para produções que questionam normas e ampliam as perspectivas sobre as experiências humanas.
Afeto, desejo e solidão
Em “Sussurros na Água”, dois homens compartilham momentos de intimidade enquanto um deles questiona a superficialidade de uma relação que, apesar de duradoura, nunca chegou a ser verdadeiramente construída para além do território sexual.
A partir dessa relação, o filme investiga temas como desejo, intimidade, solidão, expectativa, frustração e a dificuldade de estabelecer vínculos afetivos em uma sociedade marcada por relações cada vez mais fluidas.
A produção utiliza uma combinação de imagens de caráter documental e momentos de estética mais onírica. Confissões, perguntas e imagens sensoriais conduzem o espectador por uma narrativa fragmentada, na qual a realidade não aparece apenas como algo a ser registrado, mas como matéria-prima para a construção de uma experiência poética.

A proposta também aproxima a experiência dos personagens do contexto amazônico. A água, elemento central do filme, aparece tanto como espaço de acolhimento e memória quanto como símbolo das experiências de quem cresce em Rondônia, entre rios, chuvas e banhos de água doce.
Ao mesmo tempo, o elemento natural ganha uma dimensão simbólica ao representar a fluidez dos afetos e a superficialidade dos vínculos contemporâneos. O filme dialoga ainda com reflexões sobre o conceito de “Amor Líquido”, de Zygmunt Bauman, e com a ideia de “intimidade sintética”, discutida pelo psicólogo André Alves.
Cinema como espaço de experimentação
A construção do curta parte de uma relação que já existia entre o diretor Otavio de Sousa e Cristiam Velozo. Em vez de simplesmente representar uma história previamente escrita, o processo de filmagem foi incorporado à própria investigação da relação entre os dois.
Dessa forma, o cinema se transforma em um espaço de experimentação e de construção subjetiva. A câmera acompanha corpos, gestos e silêncios para investigar aquilo que muitas vezes não é dito diretamente.
A direção e montagem são assinadas por Otavio de Sousa. A produção é da Auá Filmes, com produção executiva de Stefany Araújo e assistência de produção executiva de Keven Fongaro.
A equipe também conta com Lucas Costa na direção de fotografia, Ana Vitória de Araújo Silva e Samuel Malaquias Carvalho como assistentes de fotografia, Gizzamara Mancurti na assistência de arte, Flávia Costa no design de título e pôster, Eduardo Rocha na edição e mixagem de som e Lucas Augusto da Silva na trilha musical, entre outros profissionais.
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