Em Rondônia, criticar a segurança pública pode ser suficiente para virar alvo de ataques nas redes sociais. Foi o que aconteceu com a ex-senadora e deputada estadual eleita Fátima Cleide (PT), que passou a ser alvo de desinformação após conceder uma entrevista em que fez críticas à política de segurança pública no estado.
Em vez de enfrentar os argumentos apresentados, setores da direita preferiram distorcer suas declarações e transformar uma discussão necessária em uma suposta ofensa à Polícia Militar. O episódio revela muito mais do que uma tentativa de desqualificar uma liderança política: expõe a dificuldade de parte da sociedade rondoniense em admitir que as instituições de segurança pública também precisam ser questionadas, avaliadas e aperfeiçoadas.
Durante a entrevista, o próprio entrevistador afirmou, sem apresentar provas, que a Polícia de Rondônia seria a mais honesta do Brasil. Uma declaração categórica, mas que não se sustenta apenas na convicção de quem a pronuncia. Comparar a honestidade de instituições policiais de todo o país exigiria critérios objetivos, dados verificáveis e uma metodologia capaz de sustentar tamanha afirmação.
A realidade, como costuma acontecer, é bem mais complexa do que os slogans.
Em 2025, o então comandante-geral da Polícia Militar de Rondônia, Régis Braguin, foi flagrado dirigindo alcoolizado um veículo acautelado, episódio que resultou em sua exoneração, conforme as informações sobre o caso. O fato não autoriza generalizar uma conduta individual para toda a corporação. Mas serve para lembrar algo elementar: nenhuma instituição está acima da crítica, e nenhuma patente substitui a responsabilidade de prestar contas à sociedade.
Se um episódio envolvendo o comando de uma corporação não deve servir para condenar todos os seus integrantes, tampouco a existência de policiais honestos pode ser usada como escudo para impedir o debate sobre problemas estruturais da segurança pública.
É justamente essa distinção que os ataques contra Fátima Cleide tentam apagar.
A deputada eleita afirmou que a população negra e periférica tem medo da polícia. Há motivos para levar essa afirmação a sério. Para quem vive nas periferias, a relação com as forças de segurança pode ser marcada não apenas pela expectativa de proteção, mas também pelo receio de abordagens violentas, constrangimentos e suspeitas que parecem recair com mais força sobre determinados corpos e territórios.
Negar esse medo não faz com que ele desapareça. Transformar sua denúncia em uma suposta declaração de guerra contra a Polícia Militar tampouco resolve o problema. Pelo contrário: impede que a sociedade discuta como construir uma instituição capaz de proteger todos os cidadãos, independentemente da cor da pele, da renda ou do CEP.
A frase de Fátima Cleide que mais incomodou os críticos foi direta: “Combater o crime, a gente precisa, mas não pode ser eliminando CPF porque a eliminação do CPF por essência tem levado a letalidade”.
O sentido é claro. O Estado precisa combater o crime, mas não pode tratar a morte de pessoas como se fosse, por si só, uma política eficiente de segurança pública. A expressão “eliminar CPF” remete à lógica de eliminar indivíduos, em vez de enfrentar as estruturas que sustentam as atividades criminosas.
Não se trata de defender criminosos, como os discursos mais simplistas costumam insinuar. Trata-se de defender uma política de segurança que produza resultados concretos, respeite a lei e preserve vidas.
A pergunta que precisa ser feita é: se a resposta ao crime se resume a operações letais, por que as organizações criminosas continuam encontrando condições para se expandir?
A morte de um jovem envolvido com o tráfico não desmonta, automaticamente, a estrutura financeira que sustenta a atividade. Se há recrutamento, circulação de dinheiro, fornecimento de armas, lavagem de recursos e redes de distribuição, a substituição de um integrante pode ocorrer rapidamente. Enquanto isso, comunidades inteiras continuam convivendo com a violência, o medo e a ausência de oportunidades.
Isso não significa que operações policiais sejam dispensáveis ou que o uso da força seja sempre ilegítimo. Significa reconhecer que a força precisa obedecer à lei, ser proporcional e estar submetida a controle. Também significa compreender que uma política de segurança eficaz não pode depender exclusivamente do confronto armado.
É preciso investigar, reunir provas, identificar lideranças, rastrear fluxos financeiros, apreender armas, desarticular redes de lavagem de dinheiro e responsabilizar quem lucra com o crime organizado. É preciso, ainda, fortalecer a inteligência policial, aprimorar as investigações e garantir condições dignas de trabalho aos próprios agentes de segurança.
Atacar o patrimônio e a estrutura econômica das organizações criminosas é uma frente importante desse enfrentamento. Mas ela precisa caminhar junto com políticas de prevenção, educação, proteção social e presença do Estado nos territórios mais vulneráveis. Sem isso, o poder público corre o risco de enxugar gelo: prende ou mata alguns integrantes, enquanto as condições que alimentam o recrutamento e a reprodução da violência permanecem.
Há uma diferença enorme entre combater o crime e transformar a letalidade em medida de sucesso. Uma operação com muitas mortes não é necessariamente uma operação eficiente. O resultado precisa ser medido pela capacidade de reduzir a violência, proteger a população, desarticular organizações criminosas e impedir que novas vítimas sejam produzidas.
É nesse ponto que a crítica de Fátima Cleide merece ser debatida com seriedade.
Mas Rondônia parece conviver com uma cultura política em que questionar a atuação policial é tratado como uma espécie de heresia. Para determinados setores, a polícia deve receber aplausos, não perguntas; elogios, não fiscalização. Nesse ambiente, qualquer crítica vira pretexto para acusações de que alguém estaria “falando mal da PM”.
A reação é infantil porque substitui o debate por uma caricatura. Em vez de responder ao argumento sobre o medo da população negra e periférica, os críticos inventam uma intenção que não está necessariamente presente na fala. Em vez de discutir letalidade, investigação e eficiência, reduzem tudo a uma disputa entre quem seria a favor ou contra a polícia.
Esse raciocínio é conveniente para quem pretende explorar politicamente a segurança pública, mas é péssimo para a população. Uma polícia que trabalha corretamente precisa de reconhecimento, estrutura e valorização. E também precisa de mecanismos de controle, transparência e responsabilização. Uma coisa não exclui a outra.
A própria democracia depende dessa compreensão. Instituições públicas não pertencem a governos, partidos ou grupos ideológicos. Existem para servir à sociedade e, por isso mesmo, devem estar abertas ao escrutínio público.
A trajetória de Fátima Cleide, que já ocupou uma cadeira no Senado e agora foi eleita deputada estadual, torna o episódio ainda mais relevante. O debate que ela levantou não deveria ser reduzido a uma guerra de versões nas redes sociais. Deveria servir de ponto de partida para discutir qual política de segurança Rondônia quer construir e quais resultados a população tem o direito de cobrar.
A extrema direita pode continuar tentando transformar toda crítica em ofensa. Pode repetir que questionar a letalidade é defender o crime. Pode também insistir em declarações grandiosas sobre a suposta superioridade de uma corporação sem apresentar evidências que as sustentem.
Nada disso, porém, responde às perguntas fundamentais: a população está mais segura? O crime organizado está sendo efetivamente desarticulado? As investigações alcançam quem financia e lucra com as atividades criminosas? Os moradores das periferias podem contar com a polícia sem temer que a cor da pele ou o endereço os transforme em suspeitos?
Essas são as questões que importam.
Segurança pública não é uma competição de bravatas, nem uma autorização para tratar determinadas vidas como descartáveis. É uma obrigação do Estado, que deve proteger a população, prevenir crimes, investigar delitos e responsabilizar seus autores dentro da lei.
Fátima Cleide não precisa ser poupada de críticas políticas. Suas propostas podem e devem ser debatidas, confrontadas com dados e avaliadas por seus resultados. O que não se pode aceitar é que suas declarações sejam distorcidas para alimentar uma campanha de desinformação e interditar uma discussão legítima.
Uma sociedade que não consegue questionar suas instituições de segurança sem ser acusada de proteger criminosos não está fortalecendo a polícia. Está enfraquecendo a democracia e dificultando a construção de soluções.
O verdadeiro compromisso com a segurança pública não é aplaudir toda ação policial, independentemente de seus resultados. É exigir que o Estado seja capaz de combater o crime de forma inteligente, responsável e eficaz.
Porque matar mais não significa, necessariamente, proteger melhor. E enquanto Rondônia confundir essas duas coisas, o debate continuará preso à ideologia, enquanto a população seguirá esperando por segurança de verdade.
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