Quando deixou Porto Velho em direção à Gaza, a advogada Ariadne Telles sabia que sua vida poderia estar em risco ao se juntar a missão humanitária da Flotilha da Liberdade para levar alimentos, água e insumos médicos para o povo palestino.
O que ela não imaginava é que, quando estava prestes a embarcar, testemunharia de perto os desdobramentos de um atentado terrorista que ganhou as principais manchetes do noticiário internacional.
Desde o momento que ocorreu o ataque, a advogada vem usando as redes sociais para compartilhar o que presenciou em Malta, no sul da Itália, e agora de volta ao Brasil, ela denuncia o silêncio do Itamaraty e do governo federal em relação aos ativistas brasileiros que participaram da missão.
“Nenhum pronunciamento público condenando o ataque como fez o presidente da Colômbia, Gustavo Petro, e nem qualquer tipo de contato ou resposta do Itamaraty ou do governo aos membros brasileiros da Flotilha, testemunhas e vítimas do ataque terrorista de Israel”, afirmou Ariadne.
Em entrevista ao Rondônia Plural, a advogada e membro da membro da Comissão de Direitos Humanos da OAB de Rondônia exigiu justiça e responsabilização imediata pelo que classifica como crimes de guerra.
“Este não foi apenas um ataque a uma missão humanitária, mas uma afronta ao Direito Internacional Humanitário e à dignidade de milhões em Gaza, que sofrem sob um bloqueio ilegal. O ataque ao Conscience configura crimes de guerra, pirataria marítima e desrespeito às ordens da Corte Internacional de Justiça e do Tribunal Penal Internacional”, denuncia.
Além de Israel, a advogada também aponta responsabilidade direta do governo de Malta, país sob cuja Zona Econômica Exclusiva o ataque ocorreu.
“O governo maltês não apenas falhou em condenar o ataque, mas obstruiu nossa missão com exigências burocráticas, permitiu o uso de seu espaço aéreo por aeronaves militares israelenses e prestou apoio logístico a navios que abastecem operações de bombardeio em Gaza. Essa cumplicidade é inaceitável e exige uma investigação rigorosa por órgãos internacionais”, explicou Ariadne.
Ela denuncia ainda que Malta impediu a entrada de assistência médica à embarcação atingida, isolou o navio Conscience e dificultou investigações independentes — violações diretas ao Direito Marítimo e Humanitário.
“A omissão em condenar o ataque e a cumplicidade com operações militares (via espaço aéreo e serviços logísticos) tornam Malta responsável por conivência com violações do direito internacional”, destaca a advogada e ativista da Flotilha da Liberdade.
Ariadne finaliza com um apelo por mobilização: “Convoco a sociedade civil, ONGs e governos a se unirem por justiça, exigindo corredores humanitários seguros e o fim da impunidade. A humanidade não pode fechar os olhos para esse genocídio.”
Ela também pede apoio às campanhas da Flotilha da Liberdade, que tenta retomar sua missão e seguir rumo a Gaza nos próximos dias, apesar dos riscos. “Não descansaremos até que Gaza receba a ajuda que precisa e os culpados sejam responsabilizados”, acrescenta,
Assim como outros ativistas da Flotilha da Liberdade, Ariadne também vem mobilizando pessoas para assinarem uma petição internacional que pede a órgãos de direitos humanos da ONU uma investigação independente sobre os ataques ao navio Conscience.
Israel como principal suspeito
Os desdobramentos do caso vem aumentando as suspeitas do envolvimento de Israel para sabotar a missão humanitária da Flotilha da Liberdade.
Segundo informações divulgadas pela organização internacional, uma aeronave militar israelense – do modelo C-130 Hercules – foi vista circulando o local antes e depois do ataque.
“Israel está cometendo genocídio em Gaza e cortou todos os suprimentos por mais de dois meses. Nenhum outro Estado tem um motivo mais claro para nos atacar”, enfatiza Flotilha da Liberdade em publicação no Instagram.
Além disso, a organização destaca que Israel coleciona ataques, agressões, prisões e até mesmo o assassinato de voluntários da Flotilha da Liberdade. Em 2010, dez ativistas da organização, que também levavam ajuda humanitária para Gaza, tiveram suas vidas interrompidas pela Marinha israelense.
“Eles começaram simplesmente a matar as pessoas e jogar os corpos ao meu lado. Mais do que com medo, eu fiquei injuriada. A primeira coisa que eles fizeram foi cortar nossa comunicação por satélite, antes de invadirem nosso barco de forma ilegal, em águas internacionais com helicópteros, comandos, barcos”, lembra Iara Lee, brasileira que sobreviveu ao ataque israelense contra a Flotilha da Liberdade em 2010, em entrevista ao Brasil de Fato.
Relembre o ataque ao Conscience
Era madrugada no Mar Mediterrâneo, próximo à costa de Malta. No relógio local, marcava 00h23 do dia 2 de maio quando o silêncio da noite foi rompido por explosões que afetaram um navio civil, desarmado e identificado como missão humanitária internacional batizado de “Conscience“.
A bordo da embarcação, 18 ativistas da Flotilha da Liberdade de 21 países diferentes se preparavam para mais uma etapa da missão de romper simbolicamente o bloqueio israelense à Faixa de Gaza e entregar ajuda humanitária – alimentos, água e insumos médicos – à população palestina, submetida à fome, sede e devastação há mais de dois meses pelo Estado Sionista de Israel.
O ataque comprometeu a integridade da embarcação, causando uma falha elétrica e inundando parte da estrutura.
Apesar de não ter deixado vítimas, o caso escancara como Israel age com total impunidade diante da falência moral e jurídica da comunidade internacional em responsabilizar o país por seus crimes. “A falta de ação por parte da ONU e da União Europeia, apesar das evidências, reforça a impunidade de Israel e de seus aliados”, argumenta Ariadne Telles.
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