Por Vinicius Valentin Raduan Miguel, Tiago Karitiana e Letícia Alexa Souza de Miranda
Denise Karitiana sorri para a câmera. Tem uma das mãos apoiada no encosto da cadeira de rodas do filho, Guilherme, e o braço levemente curvado em direção ao corpo dele, como quem protege sem apertar. Guilherme olha para o lado. Tem paralisia cerebral, não fala, não movimenta os membros sozinho. Tem, também, uma mãe que nunca para. E uma aldeia inteira que o conhece pelo nome.
Nenhum médico especialista visita a Aldeia Beijarana com regularidade. Nenhum terapeuta ocupacional. Nenhum professor de educação especial. Guilherme tem o direito constitucional a tudo isso. E tem zero.
A Aldeia Beijarana — Pyrojigngã, em língua Karitiana — fica a aproximadamente 95 quilômetros de Porto Velho, capital de Rondônia. Chegar até lá exige sair do asfalto e percorrer uma estrada de terra vermelha que atravessa um corredor de fazendas. Soja. Pasto. Cercas. Mais pasto. A floresta, que deveria ser a paisagem dominante dessa parte da Amazônia, aparece apenas no horizonte, como lembrança do que havia. Ou como fronteira do que ainda resta.
A terra tem proteção legal há quarenta anos. O Estado ainda não chegou.
A Terra Indígena Karitiana tem 89.682 hectares, foi demarcada em 1978 e homologada em 1986. É, no papel, uma das terras indígenas mais antigas e mais bem estabelecidas juridicamente de Rondônia. Na prática, é uma terra sitiada por fazendeiros, privada de água por represamentos ilegais e esquecida pelo poder público em quase tudo que importa: escola, saneamento, saúde, inclusão.
Em 14 de março de 2026, uma equipe do CEDECA Maria dos Anjos e do Projeto IARA visitou a aldeia. O que encontrou confirma, ponto a ponto, uma hipótese que pesquisadores e organizações indígenas repetem há anos: o que acontece nas terras indígenas de Porto Velho não é descaso. É racismo ambiental — a negação sistemática, estrutural e historicamente construída de direitos básicos a populações racialmente marginalizadas.
O corredor
Antes de chegar à aldeia, é preciso atravessar o que a equipe passou a chamar de o corredor. Não tem esse nome oficial. Mas poderia ter.
A BR-364 é a espinha dorsal da colonização de Rondônia. Foi ela que, nas décadas de 1970 e 1980, abriu caminho para centenas de milhares de migrantes assentados pelo governo federal em terras que, muitas vezes, já eram ocupadas por povos indígenas. O resultado foi um estado em que o agronegócio avançou sobre a floresta com a bênção do Estado — e os povos originários foram empurrados para as beiradas, literalmente.

Hoje, quem vai à Aldeia Beijarana vê essa história materializada na paisagem. Do asfalto até a entrada da terra indígena, quase tudo é pasto ou lavoura. O boi pariu na terra da anta. A soja cresceu onde havia ipê.
“A gente vê o que eles fazem com a terra e sente que estão chegando. A floresta vai sumindo. E a água vai sumindo junto”, Morador da aldeia (fala reconstituída)
A água é o conflito mais urgente do momento. Fazendeiros com propriedades nas margens da Terra Indígena Karitiana têm represado cursos d’água que abastecem a comunidade. O problema foi relatado à equipe por moradores e está documentado em denúncias registradas pelo Conselho Indigenista Missionário de Rondônia (CIMI-RO) e encaminhadas ao Ministério Público Federal (MPF/RO).
Represar a água de uma comunidade indígena não é apenas uma infração ambiental. É cortar o acesso a algo que, para muitos povos amazônicos, transcende a dimensão utilitária. A água, na cosmologia Karitiana, não é só recurso: é memória, é vida, é território.
89.682 hectares de Terra Indígena Karitiana — demarcada há 40 anos. Conflito com fazendeiros persiste.
A escola que o povo construiu — e que o Estado ignorou
Há uma estrutura na Aldeia Beijarana que, dependendo de como você olha, é ao mesmo tempo uma prova de resistência e uma prova de abandono. A comunidade a chama de escola.
Tecnicamente, é uma antiga construção erguida por missionários evangélicos — o SIL, Sociedade Internacional de Linguística, que esteve entre os Karitiana desde os anos 1960 — que foi esvaziada de seu propósito original e ressignificada pela própria comunidade como espaço de educação.

Não há escola indígena construída pelo poder público na Aldeia Beijarana. Não há previsão de que haja. O que existe é esse espaço herdado de uma missão religiosa que tentou, durante décadas, apagar a cultura Karitiana — e que hoje, por ironia e por força, serve para preservá-la.
“A gente ensina porque acredita. Porque se a gente não ensinar, quem vai ensinar? Mas não é justo que seja assim. A gente merecia uma escola de verdade”, José Claudenilson Karitiana, professor indígena (fala reconstituída)
Claudenilson é o único professor da aldeia. Trabalha em regime multissérie — um único educador, crianças de idades e níveis diferentes, todas na mesma sala ao mesmo tempo. Não por escolha pedagógica: por falta de alternativa. E com um contrato temporário, emergencial, que pode não ser renovado a qualquer momento.
A estrutura onde ele ensina não tem paredes. Não é uma metáfora, não é uma licença poética: literalmente não há paredes separando a sala de aula do lado de fora. As crianças estudam expostas ao sol da Amazônia, à chuva de verão, ao vento que carrega poeira e folhas. As carteiras enferrujadas ficam alinhadas num espaço aberto, sob uma cobertura que protege parcialmente.
O espaço que antes tentou apagar a cultura Karitiana, hoje — pelas mãos do próprio povo — serve para preservá-la.
A ausência de estrutura adequada viola, de forma direta, pelo menos três instrumentos legais: o artigo 210, §2º da Constituição Federal de 1988, que garante às comunidades indígenas o uso de suas línguas maternas e processos próprios de aprendizagem; os artigos 78 e 79 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação, que estabelecem a oferta de educação escolar bilíngue e intercultural aos povos indígenas; e as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Escolar Indígena, que determinam infraestrutura mínima adequada.
A língua que Claudenilson tenta preservar com esses recursos mínimos é única no mundo. O Karitiana é o único idioma vivo da família linguística Arikém, ramo do tronco Tupi. A língua está em processo de candidatura ao Inventário Nacional de Diversidade Linguística (INDL), conduzido pelo IPHAN e pelo Museu Paraense Emílio Goeldi. Ela sobrevive. Mas sobrevive apesar do Estado, não graças a ele.
O banheiro tombado
Tem uma imagem da visita que funciona como síntese de tudo. Um vaso sanitário tombado no chão de terra batida. Em volta, alvenaria sem reboco, paredes incompletas, chão úmido com manchas de lodo. Nenhuma ligação a qualquer rede de esgoto. Nenhuma torneira. Nenhuma porta.
É o banheiro da escola.
A imagem não é exceção. É regra. As instalações sanitárias da aldeia apresentam o mesmo padrão: estruturas iniciadas e nunca concluídas, sem função real, sem água, sem destinação de esgoto. O chão acumula água parada — potencial foco de doenças como dengue, leptospirose e hepatite A.
29,9% dos indígenas no Brasil têm esgotamento sanitário adequado. Entre brancos, o índice é 83,5%. (Censo IBGE 2022 / Conectas Direitos Humanos)
Os números do Censo Demográfico 2022 do IBGE são brutais. Segundo análise da organização Conectas Direitos Humanos, apenas 29,9% dos indígenas têm esgotamento sanitário adequado no Brasil — contra 83,5% da população branca. Menos de 60% têm acesso a água canalizada.
Pesquisa publicada na Unisanta Law and Social Science em 2025, com base nesses dados, conclui que a falta de saneamento em territórios indígenas não é um problema técnico: é uma violação sistemática de direitos humanos, resultado do que o pesquisador Robert Bullard, nos anos 1980, batizou de racismo ambiental.

Racismo ambiental é a distribuição desigual dos riscos e das ausências sobre populações racialmente marginalizadas — não apenas por ações diretas, mas pelas omissões sistemáticas do poder público. Em agosto de 2023, o Governo Federal reconheceu formalmente o problema ao criar o Comitê de Monitoramento da Amazônia Negra e Enfrentamento ao Racismo Ambiental, no âmbito do Ministério da Igualdade Racial. O comitê existe. Na Aldeia Beijarana, o banheiro ainda está tombado.
Guilherme
Há nomes que carregam mundos.
Guilherme Karitiana tem paralisia cerebral. É não verbal — não fala. É tetraplégico — não movimenta os membros. Usa cadeira de rodas. Tem, segundo Denise, sua mãe, um jeito próprio de sorrir que ela aprendeu a reconhecer antes de qualquer outra pessoa.
“Ele entende tudo. Todo mundo aqui sabe disso. Ele ri quando a gente ri. Fica quieto quando a gente fica triste. Só não consegue falar. Mas ele tá aqui, presente”, Denise Karitiana, mãe de Guilherme (fala reconstituída)

Guilherme não frequenta a escola. Não há transporte adaptado. Não há rampa. Não há professor de educação especial. Não há fonoaudiólogo, fisioterapeuta, terapeuta ocupacional. Não há nenhum serviço de atendimento educacional especializado (AEE) na aldeia — nem na aldeia, nem disponibilizado pelo município para atendê-lo onde ele está.
A Lei Brasileira de Inclusão (Lei nº 13.146/2015) é clara: toda pessoa com deficiência tem direito a educação inclusiva em todos os níveis de ensino, com os apoios necessários. O artigo 208 da Constituição Federal determina que o atendimento educacional especializado a pessoas com deficiência é dever do Estado. O ECA reforça: é absoluta a prioridade da criança. Guilherme é indígena, tem deficiência e mora numa aldeia remota. Nenhuma dessas garantias chegou até ele.
Ele entende tudo. Só não consegue falar. Mas ele tá aqui, presente.
A situação de Guilherme não é singular no Brasil. Crianças indígenas com deficiência em comunidades remotas formam um grupo praticamente invisível nas políticas públicas — um ponto cego na intersecção entre a política indigenista, a política de educação especial e a política de saúde. Cada área tende a remeter ao outro. E Guilherme fica onde sempre ficou: nos braços de Denise.
“Eu cuido dele. Sempre cuidei. Mas às vezes canso. Não tenho com quem deixar. Não tem ninguém que venha ajudar. É só eu”, Denise Karitiana (fala reconstituída)
A equipe do CEDECA recomenda o encaminhamento formal do caso de Guilherme à SESAI (Secretaria de Saúde Indígena), à FUNAI, às Secretarias Municipal e Estadual de Educação, ao Ministério Público Federal em Rondônia e à Defensoria Pública da União.
Yjxa — nós, gente
Os Karitiana se chamam a si mesmos de Yjxa. Em sua língua, é o pronome da primeira pessoa do plural inclusivo. Significa, simplesmente: nós. Gente. A denominação “Karitiana” foi dada por seringueiros no final do século XIX, quando as primeiras frentes de exploração da borracha chegaram ao vale dos rios Candeias e Jamari, no que hoje é Rondônia.
A história do povo é a história de quase extinção seguida de reconstrução. O contato intenso com não indígenas no início do século XX trouxe doenças para as quais não havia imunidade. A população, que um dia chegou a ocupar todo um conjunto de vales, foi reduzida a poucas dezenas de pessoas. Décadas depois, reverteu esse processo: hoje são aproximadamente 450 pessoas, vivendo em sete aldeias, num movimento de crescimento demográfico e fortalecimento cultural que estudiosos descrevem como notável.
Esse fortalecimento passa, centralmente, pela língua. O Karitiana — a única língua da família Arikém que ainda vive — é ensinado na escola, falado nas aldeias, documentado por linguistas. O professor Claudenilson é parte desse esforço. Cada aula que ele dá, com contrato temporário, numa sala sem paredes, é também um ato de preservação de algo que o mundo inteiro perderia se o povo Karitiana perdesse: um modo único de nomear o real.
“A língua é o que nos faz ser o que somos. Se a gente perde a língua, perde tudo. É por isso que eu venho todo dia. Mesmo sem saber se vou continuar no ano que vem”, José Claudenilson Karitiana (fala reconstituída)
As crianças da aldeia, no dia da visita, estavam curiosas. Quando uma das pesquisadoras mostrou a câmera do celular, aglomeraram-se em volta para ver a própria imagem na tela — algumas pela primeira vez, talvez. Riram. Empurraram-se levemente. Uma delas apontou para si mesma e disse, em Karitiana, algo que as outras entenderam e que fez todo mundo rir de novo.
Essa cena — crianças rindo diante de um espelho digital enquanto estudam num espaço aberto, sem paredes, sem banheiro, sem professor com contrato garantido — é o retrato mais preciso do que é viver numa terra indígena em Rondônia em 2026. Há vida, há riso, há língua. Há resistência. E há abandono.
O que o Estado deve
No caminho de volta para Porto Velho, a paisagem é a mesma. Soja. Pasto. Cercas. A estrada vermelha que conecta a aldeia ao mundo não é asfaltada. No período de chuvas, fica intransitável. A aldeia fica ainda mais longe.
A resiliência do Povo Karitiana é real e não deve ser romantizada. Eles não sobreviveram porque o Estado os ajudou. Sobreviveram apesar do Estado, às vezes contra ele. E continuam sobrevivendo — ensinando sua língua em salas sem paredes, cuidando dos filhos com deficiência sem qualquer suporte, disputando água com fazendeiros que têm dinheiro, advogados e influência política.
Não é virtude do Estado que esse povo persista. É virtude do próprio povo. E essa distinção importa.
O que se exige não é generosidade. É cumprimento de lei. Uma escola com paredes, banheiro e infraestrutura digna. Um contrato permanente para o professor Claudenilson. Atendimento educacional especializado para Guilherme. Água potável. Saneamento.
Fiscalização do represamento hídrico pelas autoridades competentes — IBAMA, FUNAI, Polícia Federal. São obrigações constitucionais com data de validade vencida há décadas.
O Povo Karitiana não pede favor. Pede o que é seu.
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