À frente da Secretaria Municipal de Meio Ambiente de Porto Velho, Vinicius Miguel encerrou sua passagem pela pasta defendendo que a capital rondoniense vive uma inflexão na forma de enfrentar o desmatamento. Em um cenário historicamente marcado por alta pressão sobre a floresta, a gestão apostou na combinação de inteligência territorial, monitoramento em tempo real e integração institucional para ampliar a capacidade de resposta do poder público.
Em entrevista a reportagem de Rondônia Plural, ele afirma que a redução dos focos de calor, a modernização do licenciamento ambiental e o fortalecimento da fiscalização são evidências de uma mudança estrutural. Ao mesmo tempo, reconhece que os desafios permanecem e que a continuidade das políticas será decisiva para consolidar os avanços.

Rondônia Plural Entrevista | Vinicius Miguel
Qual foi o principal marco da sua gestão na SEMA?
A gente conseguiu mudar a lógica da política ambiental. Saímos de um modelo reativo, que só respondia ao problema depois que ele acontecia, para um modelo baseado em inteligência territorial, dados e prevenção. Isso muda completamente a capacidade do Estado de agir.
O que isso significa na prática?
Significa que hoje o município consegue monitorar o território praticamente em tempo real, antecipar riscos e agir antes que o desmatamento se consolide. A criação do Escritório de Governança Ambiental foi central nesse processo, porque integrou tecnologia, informação e tomada de decisão.
O Projeto Sentinela Ambiental foi uma das principais iniciativas. Qual o impacto dele?
Ele foi decisivo para reduzir a impunidade. Quando você tem monitoramento contínuo e resposta rápida, o risco para quem comete crime ambiental aumenta. Isso muda o comportamento no território.
A queda de mais de 87% nos focos de calor chama atenção. Como explicar esse resultado?
O fogo é um dos principais vetores do desmatamento. Reduzir queimadas significa atacar uma etapa essencial desse processo. Esse resultado é fruto de fiscalização, brigadas, monitoramento e também de uma presença mais efetiva do poder público.
A fiscalização também foi intensificada?
Sem dúvida. A gente ampliou muito a capacidade operacional, com uso de drones, GPS e rotas inteligentes. Além disso, processamos mais de 1.400 denúncias em 2025. Isso aumenta a presença do Estado e tem um efeito direto de dissuasão.
Outro ponto citado é a reforma do licenciamento ambiental. O que mudou?
Mudou tudo. O sistema passou a ser 100% digital, com rastreabilidade de longo prazo e, principalmente, com a eliminação do passivo. A “fila zerada” reduz a insegurança e evita que a demora do Estado empurre atividades para a ilegalidade.
Houve também endurecimento das regras?
Sim. A gente aumentou o nível de exigência, principalmente com relatórios de monitoramento ambiental. Isso eleva o custo da ilegalidade e melhora o controle sobre atividades potencialmente degradadoras.
Como a gestão atuou na recuperação ambiental?
Investimos na produção de mudas e na restauração de áreas degradadas, inclusive com expansão para regiões como o Baixo Madeira. Isso ajuda a reduzir a pressão por abertura de novas áreas.
E no campo econômico, houve alternativas ao desmatamento?
Esse é um ponto chave. Trabalhamos com sistemas agroflorestais, assistência técnica e integração com regularização fundiária. A ideia é oferecer caminhos sustentáveis para quem vive no território.
A educação ambiental teve espaço na gestão?
Teve, e é estratégica. A gente alcançou mais de 1.800 alunos com programas estruturados. Pode não ter efeito imediato, mas é fundamental para mudar comportamento no médio e longo prazo.
Qual foi o papel da articulação institucional?
Foi decisivo. Nenhuma política ambiental funciona de forma isolada. Trabalhamos integrados com Defesa Civil, Ministério Público e governo federal. Isso aumenta muito a eficácia das ações.
Apesar dos avanços, Porto Velho ainda é área de pressão ambiental. Qual o principal alerta?
O alerta é que a redução é real, mas não está garantida. O território continua sob forte pressão, especialmente em regiões como a BR-319 e o Baixo Madeira. Se não houver continuidade, os indicadores podem voltar a subir.
Que legado o senhor acredita deixar?
Um modelo. Um jeito diferente de fazer política ambiental, baseado em dados, tecnologia e integração. Agora, o desafio é transformar isso em política de Estado, para que não dependa de uma gestão específica.
E o futuro?
O futuro depende de continuidade e aprofundamento. A gente mostrou que é possível reduzir o desmatamento mesmo em um território complexo. Agora é consolidar esse caminho.
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