O documentário “Caçambada Cutuba”, dirigido por Délcio Teobaldo e baseado na pesquisa histórica do jornalista e escritor Zola Xavier da Silveira, integra a programação do 19ª edição do CINEAMAZÔNIA – Festival de Cinema Ambiental e será exibido nesta quarta-feira (5), durante as atividades realizadas pelo festival na Escola Bela Vista, no município de Candeias do Jamari.
A produção resgata a chamada “Caçambada Cutuba”, considerada o maior caso de repressão política registrado no então Território Federal de Rondônia. Além de reconstruir os acontecimentos da noite de 26 de setembro de 1962, o documentário também amplia o debate sobre a história política da região ao abordar a passagem do revolucionário argentino Ernesto “Che” Guevara por Rondônia. Entre os destaques está o depoimento exclusivo de João Leal Lobo, ex-presidente da União Rondoniense dos Estudantes Secundaristas (URES), preso após o golpe civil-militar de 1º de abril de 1964, que relata seu contato com Che Guevara.
O filme também retrata o ambiente de perseguição e tensão política instaurado pelos interventores nomeados durante o regime militar, revelando como a repressão atingiu lideranças populares e movimentos sociais no território.
A narrativa reconstrói o cenário político da época, quando dois grupos disputavam o protagonismo eleitoral em Rondônia. De um lado estavam os chamados “cutubas”, ligados às oligarquias, aos latifundiários e a setores do integralismo. Do outro, os “peles-curtas”, integrantes da Frente Popular liderada pelo Partido Social Progressista (PSP), que reunia democratas, socialistas, comunistas e seringalistas.
O clima de polarização se intensificou com o crescimento político de Renato Medeiros, apoiado pelo movimento estudantil secundarista. Na noite de 26 de setembro de 1962, cerca de cinco mil pessoas participaram de um comício realizado no bairro Olaria, em Porto Velho. Ao término do evento, como era tradição durante a campanha, a multidão acompanhava o candidato em passeata até sua residência.
Pouco antes da caminhada, Raimundo Medeiros, filho do candidato, teria pedido que o pai não seguisse à frente da manifestação após um pressentimento. Minutos depois, um caminhão-basculante da prefeitura avançou sobre os participantes, provocando a morte da lavadeira Luiza Ribeiro da Silva, moradora do Mocambo, e do seringueiro Custódio José de Azevedo, além de deixar dezenas de feridos.
Embora o episódio permaneça praticamente ausente dos registros oficiais, a tragédia ficou preservada na memória popular e é detalhada no livro “Uma Frente Popular no Oeste do Brasil – Do Incêndio na Catedral ao Palacete Rio Madeira e outras histórias do Território Federal de Rondônia”, de Zola Xavier da Silveira, obra que serviu de base para a produção audiovisual.
A exibição integra a programação da 19ª edição do CINEAMAZÔNIA, que acontece entre os dias 3 e 7 de agosto em escolas públicas de Porto Velho, Candeias do Jamari e Itapuã do Oeste. Além das sessões gratuitas de cinema, o festival promove oficinas de animação, debates e encontros voltados à preservação da memória audiovisual amazônica.
Segundo o diretor do CINEAMAZÔNIA, José Jurandir da Costa, a proposta é utilizar o cinema como ferramenta de formação cidadã e reflexão crítica. Nesta edição, o festival reforça o compromisso de aproximar estudantes da produção audiovisual brasileira e amazônica, estimulando discussões sobre meio ambiente, direitos humanos, memória e a história da região.
Realizado desde 2003, o CINEAMAZÔNIA consolidou-se como um dos principais festivais de cinema da Amazônia, levando produções audiovisuais a comunidades e espaços públicos com pouco acesso à cultura e fortalecendo o cinema como instrumento de educação, inclusão social e valorização da memória coletiva.
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Foto: Acervo Pessoal/Zola Xavier da Silveira
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