A explosão de casos de transtornos como ansiedade, depressão, síndrome de burnout e pânico não pode ser vista apenas como um problema individual ou clínico. Essa é a avaliação do psicólogo Adrian Jhonnson, que defende uma reflexão crítica sobre as relações entre saúde mental, desigualdade social e o modelo econômico vigente.
De acordo com o psicólogo, em tempos onde o sofrimento psíquico se tornou comum, a resposta não está apenas nos consultórios ou nos diagnósticos médicos, mas nas condições materiais de vida produzidas por um sistema que prioriza a produtividade acima do bem-estar humano.
Segundo Adrian, o capitalismo em sua fase neoliberal transformou o trabalhador em uma engrenagem cuja função principal é produzir cada vez mais, em menos tempo e com menor custo. “Quando essa engrenagem falha, entra em cena um segundo mercado igualmente lucrativo: o da medicalização do sofrimento”, explica.
“O adoecimento, dentro dessa lógica, é um produto. E o produto que gera lucro não se elimina, se administra”, argumenta.
O psicólogo ressalta que não é contrário ao uso de medicamentos ou aos tratamentos psiquiátricos, mas critica a tendência de reduzir problemas sociais complexos a soluções individuais e químicas.
Ele enfatiza que questões como desemprego, precarização do trabalho, jornadas exaustivas, endividamento, insegurança alimentar, falta de moradia e isolamento social estão diretamente ligadas ao aumento dos transtornos mentais.
Adrian também lembra a história da luta antimanicomial brasileira. “Durante décadas, pessoas consideradas inconvenientes ou incapazes de se adequar às normas sociais foram confinadas em hospitais psiquiátricos, muitas vezes submetidas a violações de direitos humanos”, explica.
A aprovação da Lei nº 10.216, em 2001, conhecida como Lei Paulo Delgado, representou um marco na defesa do tratamento em liberdade e na substituição dos manicômios por uma rede comunitária de atenção psicossocial. Entretanto, segundo o psicólogo, a implementação dessa política nunca ocorreu de forma plena.
Ele aponta que os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) permanecem insuficientes diante da demanda, enquanto recursos públicos continuam sendo direcionados para instituições que reproduzem práticas de confinamento e restrição de direitos.
O psicólogo alerta ainda para o crescimento de propostas de internação compulsória de pessoas em situação de rua. “Essas medidas utilizam o discurso da saúde pública para justificar processos de exclusão social e higienização urbana”, enfatiza.
“O problema não está apenas nos manicômios do passado. Os novos manicômios são invisíveis”, reforça.
Segundo ele, o controle social hoje ocorre por meio de diagnósticos excessivamente individualizados, medicalização permanente e políticas que retiram das pessoas o direito de existir fora dos padrões considerados aceitáveis.
Ao concluir sua análise, o psicólogo defende uma compreensão mais ampla da saúde mental que garanta bem-estar psicológico através da promoção de direitos básicos, como acesso à moradia, alimentação adequada, transporte público de qualidade, trabalho digno e serviços de saúde eficientes.
Mais do que uma discussão sobre tratamento psiquiátrico, Adrian Jhonnson propõe uma reflexão sobre o modelo de sociedade que produz sofrimento em larga escala e sobre quem se beneficia da sua permanência. “Enquanto o sofrimento der lucro, ninguém no poder vai querer que ele acabe”, finaliza.
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