Um grupo de lideranças da esquerda anunciou a criação da Bancada da Esquerda Radical, iniciativa que pretende articular candidaturas à Câmara dos Deputados em torno de uma agenda política assumidamente anticapitalista, anti-imperialista, feminista, antirracista e ecossocialista. O lançamento da bancada ocorre acompanhado de um manifesto que procura oferecer uma resposta às transformações do capitalismo brasileiro, ao crescimento da extrema direita e ao aprofundamento das desigualdades sociais.
Segundo os organizadores, a disputa eleitoral não será suficiente para conter o avanço das forças conservadoras; será necessário, afirmam, travar uma disputa permanente de ideias junto à população.
A articulação reúne os pré-candidatos a deputado federal Fábio Felix, Fernanda Melchionna, Glauber Braga, Jones Manoel, Renato Freitas, Sâmia Bomfim e Vivi Reis, que defendem a construção de uma atuação coordenada no Congresso Nacional caso sejam eleitos.
A disputa política para além das urnas
O documento que acompanha o lançamento da bancada parte de um diagnóstico de que a ascensão da extrema direita não pode ser compreendida apenas pelo campo cultural ou ideológico, mas sobretudo como consequência de um modelo econômico que, segundo seus autores, ampliou o desemprego, a precarização do trabalho, o endividamento das famílias e a perda da capacidade do Estado de promover desenvolvimento.
Para os integrantes da bancada, enfrentar a extrema direita exige recuperar temas considerados centrais para o cotidiano da população, como inflação dos alimentos, altas taxas de juros, endividamento familiar, precarização do trabalho, redução dos investimentos públicos, destruição ambiental e perda da soberania econômica nacional.
Segundo o manifesto, é justamente sobre essas questões concretas que a esquerda deve concentrar sua comunicação política durante o processo eleitoral.
Um manifesto contra o neoliberalismo
O eixo central da proposta é uma crítica direta ao modelo econômico adotado nas últimas décadas. Os autores afirmam que o país vive sob um regime de austeridade permanente que prioriza o pagamento da dívida pública, reduz investimentos sociais e favorece o setor financeiro.
Na avaliação apresentada pelo grupo, essa lógica produziu desindustrialização, aumento da desigualdade, financeirização da economia, concentração de renda, expansão do agronegócio exportador sobre áreas ambientalmente sensíveis e fortalecimento do capital internacional sobre setores estratégicos brasileiros.
O documento também sustenta que o crescimento da extrema direita decorre da frustração social produzida por esse modelo econômico.
Crítica ao rentismo e ao sistema financeiro
Ainda de acordo com o Manifesto, a política monetária brasileira estaria organizada prioritariamente para atender aos interesses do mercado financeiro, em detrimento da produção e da geração de empregos.
Entre as medidas defendidas estão o fim da autonomia do Banco Central, redução estrutural da taxa básica de juros, ampliação do crédito público, renegociação de dívidas das famílias, revisão das dívidas de estados e municípios e fortalecimento dos bancos públicos.
A proposta também sugere abandonar o atual regime de metas de inflação, subordinando a política monetária aos objetivos de desenvolvimento econômico e pleno emprego.
Revogação das reformas
Grande parte da plataforma política concentra-se na revisão de reformas aprovadas nos últimos anos. Entre as principais propostas aparecem:
Revogação do novo teto de gastos
O grupo propõe substituir o atual arcabouço fiscal por um sistema de planejamento baseado em metas sociais, ambientais e de soberania nacional. A ideia é permitir maior expansão dos investimentos públicos em infraestrutura, ciência, tecnologia, educação, saúde e geração de empregos.
Revogação da reforma trabalhista
Outro compromisso é restabelecer direitos previstos anteriormente na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Entre as medidas estão: fim do trabalho intermitente; redução da jornada de trabalho; combate à escala 6×1; fortalecimento da negociação coletiva; regulamentação do trabalho em plataformas digitais e a valorização do salário mínimo.
Previdência
O documento também defende a revogação da reforma da Previdência. Os autores propõem redução da idade mínima; diminuição do tempo de contribuição; ampliação da proteção para trabalhadores informais; reconhecimento do trabalho doméstico e de cuidado para fins previdenciários e ampliação dos benefícios sociais.
Reforma tributária com taxação da riqueza
Outro eixo importante é a defesa de uma mudança profunda na estrutura tributária brasileira. A proposta busca reduzir os impostos pagos pelos consumidores e ampliar a tributação sobre renda e patrimônio.
Entre as medidas aparecem: imposto sobre grandes fortunas; tributação de lucros e dividendos; imposto sobre grandes heranças; maior tributação sobre ganhos financeiros e redução dos tributos incidentes sobre o consumo.
Segundo o manifesto, o sistema atual penaliza desproporcionalmente trabalhadores e população de baixa renda.
Reindustrialização e inovação
A bancada também propõe um programa nacional de reindustrialização. A estratégia prevê o fortalecimento das universidades públicas, ampliação dos investimentos em ciência e tecnologia, coordenação estatal da política industrial, uso de compras governamentais para incentivar produção nacional e o incentivo à inovação em setores considerados estratégicos.
Defesa das empresas públicas
Outro ponto apontado pela Bancada da Esquerda Radical é a defesa da reestatização de empresas privatizadas. Entre as propostas estão: reestatização da Eletrobras; retomada das refinarias da Petrobras; fortalecimento das empresas públicas; criação da estatal Terrabras para exploração de minerais estratégicos e revisão do Programa Nacional de Desestatização. Os autores defendem que setores como energia, petróleo, mineração, infraestrutura e logística sejam tratados como instrumentos de soberania nacional.
Reforma agrária e segurança alimentar
Na área rural, o manifesto propõe ampliar a reforma agrária e fortalecer a agricultura familiar. As medidas incluem o fortalecimento da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), reconstrução de estoques públicos, mecanismos de regulação de preços, ampliação da produção voltada ao mercado interno e taxação estratégica de exportações em momentos de alta dos alimentos. Segundo o documento, a prioridade deve ser garantir comida barata para a população.
Meio ambiente e soberania
A pauta ambiental ocupa espaço significativo no manifesto da Bancada da Esquerda Radical. Os autores associam diretamente o modelo exportador baseado em commodities ao avanço do desmatamento na Amazônia, Cerrado e Pantanal. O documento sustenta que mineração, expansão agropecuária e exploração de recursos naturais estariam ligadas à expulsão de povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos e comunidades tradicionais. Ao mesmo tempo, defende que a proteção ambiental deve caminhar junto da industrialização verde e do fortalecimento da soberania nacional.
Contra o acordo Mercosul-União Europeia
Na política externa, a bancada propõe rejeitar o acordo comercial entre Mercosul e União Europeia. Segundo os organizadores, o tratado limitaria a capacidade do Estado brasileiro de promover políticas industriais e proteger setores estratégicos.
Como alternativa, defendem o fortalecimento da integração latino-americana; ampliação do comércio regional; maior utilização de moedas locais e a redução da dependência do dólar nas transações internacionais.
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Foto: Divulgação
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